Dicas práticas como realizar teletrabalho na residência do trabalhador de modo tão saudável, seguro e eficaz quanto possível

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Por Lorenzo Munar EU-OSHA - (tradução Rui C Correia, CSST/INE)

Introdução

O teletrabalho pode ser definido como a utilização de tecnologias da informação e comunicação (TIC) - como smartphones, tablets, computadores portáteis e de secretária — com o intuito de trabalhar fora das instalações do empregador. Este artigo foca-se no teletrabalho regular na residência do trabalhador[1] (ou trabalho a partir da residência utilizando TIC).

Nos anos mais recentes, o teletrabalho a partir da residência do trabalhador tem vindo a aumentar. Devido certamente aos avanços ocorridos nos anos recentes nas TIC e possivelmente por algumas das vantagens associadas ao teletrabalho (referidas abaixo). O aumento pode também ser provavelmente explicado pela redução em alguns dos fatores que impediam as empresas de adotar esquemas de teletrabalho, tais como a resistência da gestão e as atitudes contra o teletrabalho. A emergência pública de saúde relativa à COVID-19 impeliu pela primeira vez muitos trabalhadores para o trabalho a partir das suas residências e muitos deles a passarem a fazê-lo no futuro de uma forma mais sistemática.

O teletrabalho realizado na residência do trabalhador pode ter um impacto na segurança e saúde no trabalho (SST) dos teletrabalhadores. Por este motivo, empregadores e trabalhadores têm que estar conscientes dos riscos associados com o teletrabalho na residência e abordá-los implementando medidas de prevenção e controlo adequadas. Este artigo inclui alguns conselhos e dicas direcionadas para assegurar a saúde ocupacional e o bem-estar dos teletrabalhadores.

Em ‘Practical tools and guidance on musculoskeltal disorders’, desenvolvido pela EU-OSHA, estão disponíveis mais recursos (guias, orientações, infografias e listas de verificação) de SST e teletrabalho a partir da residência.

Vantagens e desvantagens do teletrabalho no contexto da saúde ocupacional e bem-estar[2]

O teletrabalho oferece muitas vantagens aos empregadores e trabalhadores, mas é possível que essas vantagens – dependendo das especificidades da situação de teletrabalho e da sua gestão (falta ou inadequada) – podem tornar-se inconvenientes, expondo os trabalhadores a alguns (aumentados) riscos ocupacionais.

Vantagens Desvantagens
Trabalhador
  • melhoria no equilíbrio trabalho-vida familiar
  • possibilidade de trabalhar, em situações de mobilidade reduzida devida a doença ou incapacidade
  • redução nos tempos de deslocação e nos custos (e no stress e fadiga relacionados com os transportes)
  • flexibilidade de horários e liberdade na tomada de decisão relativa à gestão do tempo de trabalho
  • possível aumento da autonomia no trabalho
  • dificuldade em separar o trabalho pago da vida privada
  • isolamento e falta de acesso à partilha de informação formal e informal que tem lugar num local de trabalho fixo
  • alteração da natureza das relações sociais de trabalho (colegas, dirigentes, gestão) derivadas da distância
  • horário  de trabalho alongado (horários flexíveis podem ser uma desvantagem se o trabalhador não se auto impuser limites de tempo)
  • execução do trabalho fora do horário normal de funcionamento (durante o tempo livre)
  • ser confrontado com os problemas isolado, sem suporte adequado (e com o stress associado)
  • desenvolvimento de lesões músculo-esqueléticas se os aspetos ergonómicos relacionados com o trabalho com TIC não  forem geridos adequadamente (postura, equipamentos inadequados, etc.)
Empregador
  • redução dos riscos de acidentes de viação pela redução das deslocações
  • poupança em espaços de escritórios e custos associados
  • aumento da atratividade da empresa, atraindo e retendo trabalhadores qualificados
  • aumento da flexibilidade das atividades de negócio e serviços
  • aumento dos riscos de SST se não forem realizadas (adequadas) avaliações de risco
  • maior dificuldade de supervisão para os dirigentes/gestores e necessidade de encontrar novas formas de gestão
  • dificuldades em fornecer o suporte necessário aos teletrabalhadores
  • possível descida no empenho (compromisso com o serviço) e queda no espirito de equipa
  • a comunicação interna torna-se mais difícil

Teletrabalho  a partir da residência e segurança e saúde no trabalho

Em julho de 2002 foi concluído o acordo European Framework Agreement on Telework[3] entre os parceiros sociais (European Trade Union Confederation, BusinessEurope, European Centre of Employers and Enterprises and European Association of Craft, Small and Medium-Sized Enterprises): a maioria dos Países Membros da EU implementou posteriormente esse European Framework Agreement on Telework através de acordos nacionais de concertação social. O acordo cobre, entre outros aspetos:

Saúde e segurança: o empregador é responsável pela proteção de saúde ocupacional e segurança do teletrabalhador em concordância com a Diretiva89/391 e relevantes diretivas derivadas desta, legislação nacional e acordos coletivos. De modo a verificar que as prescrições de saúde e seguranças são corretamente aplicadas, o empregador, os representantes dos trabalhadores e/ou as autoridades relevantes têm acesso ao local d etrabalho, dentro dos limites definidos na legislação nacional e acordos coletivos. Se o teletrabalhador exerce na sua residência, esse acesso tem que ser antecipadamente notificado e obtido o seu acordo. Ao teletrabalhador é garantido o direito de requer visitas inspetivas.

Equipamento: como regra geral, o empregador é responsável por fornecer, instalar e manter o equipamento necessário para o teletrabalho regular, a não ser que o teletrabalhador utilize o seu equipamento pessoal (…).

Organização do trabalho: no contexto da legislação aplicável, acordos coletivos e regras da organização, o teletrabalhador gere a organização do seu tempo de trabalho. A carga de trabalho e padrões de desempenho do teletrabalhador são equivalentes ao de trabalhadores homólogos nas instalações da empresa.

Os empregadores têm as mesmas responsabilidades com os teletrabalhadores que têm com quaisquer outros trabalhadores. Estes incluem a identificação e gestão dos riscos ocupacionais dos teletrabalhadores nas suas residências. Os aspetos principais da avaliação de riscos são:[4]

  • o ambiente de trabalho na residência
  • o equipamento de trabalho (principalmente o visor e o posto de trabalho)
  • o stress e o bem-estar mental
  • o trabalho isolado (caso algo inesperado ocorra, tal como um acidente ou doença)
  • os perigos gerais de saúde e segurança, incluindo bons padrões de manutenção da residência para evitar riscos elétricos, quedas ao mesmo nível e movimentação manual de cargas

Ambiente de trabalho na residência

  • Um ambiente de trabalho na residência adequado deve incluir:
  • Uma divisão (idealmente), e se isto não for possível pelo menos um espaço em que o teletrabalhador pode trabalhar. Isto é importante por diferentes motivos:[5]
    • Permite ao teletrabalhador estar acústica e visualmente isolado, facilitando a concentração e minimizando distrações.
    • Contribui para manter uma fronteira entre as vidas laboral e familiar. Uma forma simbólica de estabelecer a divisão entre estas duas esferas: sair da divisão/espaço significa sair do trabalho.
  • Temperatura, humidade e ventilação adequadas.
  • Iluminação adequada (incluindo luz natural) para desempenhas as tarefas com eficácia, precisão e de modo saudável.
  • Ligação à internet e linha telefónica adequadas (se necessário).
  • Verificação periódica de falhas no equipamento e na instalação elétrica.

Visor e posto de trabalho

O teletravalho está também associado a riscos ergonómicos. Trabalhar com um visor, um computador inadequado e num modo sedentário está relacionado, entre outros aspectos, com fadiga visual; dor e lesão músculo-esquelética; stress; carga de trabalho mental e cognitiva; e efeitos na saúde da falta de exercício/sedentarismo (obesidade, diabetes tipo II, patologias cardiovasculares, etc).

O equipamento específico, material e acessórios, bem como as medidas preventivas a adotar, devem ser definidas através da avaliação do posto de trabalho. Isto requer a consideração das necessidades específicas do utilizador, as restrições espaciais e o tempo gasto a trabalhar ao computador. Dependendo do acordo de teletrabalho, o tempo gasto na residência a trabalhar ao computador pode variar bastante, desde o ocasional (e.g. 1 dia a cada 2 semanas) até ao frequente (1 dia ou vários dias por semana) ou mesmo a tempo inteiro.

A nível nacional, muitos ministérios do trabalho (ou equivalente) e/ou institutos nacionais de SST[6] desenvolveram listas de verificação básicas e guias que devem auxiliar empregadores e trabalhadores na avaliação dos riscos ergonómicos relacionados trabalho ao computador. Muitos deles são dirigidos ao trabalho em escritório nas instalações da empresa, mas mesmo esses (não concebidos para o escritório na residência) dão aconselhamento valioso aos teletrabalhadores. Alguns exemplos são ‘Display screen equipment (DSE) workstation checklist’ da Health and Safety Executive; Home office, mobile office: managing remote working do Institute of Occupational Safety and Health; e ‘Travail sur écran – Prévention des risques’ da French National Research and Safety Institute for the Prevention of Occupational Accidents and Diseases (INRS).

Dicas e conselhos sobre o visor

  • mobiliário de trabalho ergonómico (regulável, adequado para diferentes tarefas TIC) que ajudam o teletrabalhador a manter-se confortável, numa postura de corpo neutra com alinhamento natural das articulações, e reduz pressão e tensão dos músculos, tendões e esqueleto
  • utilização de equipamento informático ergonómico (e.g. suporte de visor regulável, teclado curto), que garante uma postura mais confortável enquanto se trabalha com  um visor
  • (idealmente) fornecer um rato, teclado e monitor ou uma estação de ancoramento para quem utiliza com frequência um computador portátil — para alguns destes equipamentos isto significa poder autorizar os trabalhadores a levá-los para as suas residências
  • distribuição adequada dos equipamentos informáticos na superfície de trabalho de modo a assegurar uma posição de trabalho confortável
  • garantir espaço suficiente do posto de trabalho, para permitir o teletrabalhador ter uma posição confortável, que pode alterar, e movimentar‑se
  • garantir iluminação adequada, conforto térmico e baixo nível de ruído
  • distribuição adequada do equipamento de ar condicionado para prevenir correntes de ar
  • formar os teletrabalhadores nas técnicas corretas de regulação de mobiliário, utilização de rato e teclado e outros dispositivos de entrada de dados, e arrumação da área de trabalho para garantir uma postura de trabalho neutra e confortável
  • Assegurar interrupções periódicas através de intervalos ou realização de outras atividades sem meios informáticos quando a executar trabalho ao computador (para evitar a fadiga visual e longos períodos sentado) — são preferíveis intervalos curtos e frequentes; durante os intervalos, o teletrabalhador deve afastar-se do computador, realizar exercícios de relaxamento, etc.
  • evitar a fadiga visual focando objetos distantes  ou piscando os olhos de quando em quando
  • os deveres, expectativas e prazos devem ser claramente delineados e acordados entre dirigente/supervisor e teletrabalhador
  • utilização das ferramentas de comunicação que permitem ao teletrabalhador informar os dirigentes/colegas quando estão ‘ocupados’, ‘disponíveis’, ‘a não ser perturbado’, i.e. ‘ocupado’ quando necessitam estar concentrados em certas tarefas, ‘disponível’ quando podem ser contactados, etc.
  • assegurar que as tarefas são variadas para evitar a monotonia

Etapas/atividades simples que podem ser realizadas para reduzir os riscos relacionados com o trabalho sedentário/longo tempo sentado

Exemplos de exercícios de alongamentos a serem executados em intervalos regulares ao longo do dia:

  • Levantar os braços acima da cabeça e fazer círculos com eles.
  • Elevar os ombros e rola-los para trás e para a frente várias vezes.
  • Girar suavemente o pescoço da esquerda para a direita, focando os olhos em pontos fixos.
  • Girar as ancas, esticar os dedos do pé e flexionar os pés.
  • Alongar os extensores da anca apontando um joelho ao solo e empurrando a bacia para a frente
  • Recostar-se nas costas na cadeira e empurrar os braços contra a cadeira para alongar o tronco e os ombros.
  • Apertar as mãos atrás da cadeira e alongar os ombros para trás.

Exemplos de exercícios sentado para manter movimento e atividade ao longo do dia:

  • Aperte as nádegas por 5-10 segundos.
  • Utilize uma mola de mão para exercitar as mãos e antebraços.
  • Exercite os bíceps levantando um objeto pesado ou uma garrafa de água cheia.
  • Rode na cadeira para exercitar os abdominais.
  • Levante as pernas sob a mesa/secretária.
  • Agache-se na cadeira por 10-30 segundos.
  • Levante-se da cadeira utilizando os braços,

Exemplos de exercícios que podem ser acrescentados à rotina diária de trabalho:

  • Levante-se quando fala ao telefone se tiver um telefone sem fios ou alta-voz.
  • Almoce afastado do posto de trabalho.
  • Caminhe durante o intervalo de almoço e tempos de paragem.
  • Alongue-se na secretária a cada 30 minutos.
  • Levante-se e faça uma pausa do computador a cada 30 minutos.
  • Acrescente um mínimo de 10 minutos, por dia, de exercício aeróbico moderado a intenso, o que é suficiente para estimular o batimento cardíaco e queimar calorias.
  • Utilize uma calculadora de tempo sentado e se necessário altere o seu comportamento sedentário.
  • Utilize estações de trabalho reguláveis de modo a poder trabalhar em pé e sentado.
  • Adicione mais intervalos ou microintervalos ao dia de trabalho.
  • Acorde um tempo máximo de exposição a trabalho sedentário, por exemplo um máximo de 2 horas consecutivas e não mais de 5 horas por período/turno.

Aspectos relativos ao stress e saúde mental

A fontes principais de stress para os teletrabalhadores incluem longos períodos laborais; trabalho intensivo e flexível; organização do trabalho; isolamento; e esbatimento das fronteiras entre trabalho e vida familiar.

Várias abordagens permitem ajudar os teletrabalhadores a melhorar o seu equilíbrio trabalho-vida familiar. Algumas estratégias que podem ser utilizadas incluem:

  • Inicie e termine o dia com uma rotina ou rutual diário (vista-se, dê um passeio ou outra atividade dinâmica – sem um écran) e tente começar e terminar à mesma hora todos os dias..
  • Estabeleça as horas durante pode ser contactado (pelos colegas ou dirigentes).
  • Planifique o dia de trabalho e cumpra-o com rigor (para controlar o tempo de laboração e evitar sobretrabalho ou trabalho permanente).
  • Desligue o computador e/ou o telefone de serviço.
  • Planifique e faça curtos intervalos frequentes e o intervalo para almoço
  • Tenha uma divisão/espaço na qual trabalha de modo que quando saia desta o trabalho se dê por acabado..
  • Estabeleça limites das horas de trabalho com cônjuges, crianças e/ou co‑residentes.

Dicas para prevenir o sentimento de estar isolado, desligado ou abandonado

  • O isolamento devido ao teletrabalho pode ter potenciais efeitos negativos na saúde ocupacional e bem-estar dos teletrabalhadores; pelo que é muito importante assegurar uma boa comunicação entre o teletrabalhador e o empregador ou colegas.
  • O empregador deve fornecer ferramentas de comunicação (emails, salas de conversação, partilha de documentos, vídeo conferência, ferramentas colaborativas, agendas partilhadas, etc.) e o desejado suporte relacionado com estas.
  • Os teletrabalhadores utilizam as ferramentas de comunicação disponibilizadas pelo empregador para estarem informados dos últimos desenvolvimentos do trabalho, equipa e organização.
  • Os teletrabalhadores agendam reuniões frequentes e pontos de situação com o dirigente direto, a equipa e clientes para ajudar a manter o contacto e reforçar relações laborais positivas.
  • O contacto informal é mantido pela junção de todos em linha (intervalos para café virtuais, fóruns de discussão/salas de conversação, etc.).
  • Os dirigentes/gestores mantêm-se em contacto com os trabalhadores individuais e através de contactos frequentes asseguram-se que estes estão saudáveis e seguros (procurando reconhecer sinais de stress).
  • Os teletrabalhadores estabelecem uma rotina para contacto com o dirigente direto ou colegas.

Referências


  1. Teletrabalho regular na residência do trabalhador significa trabalho frequente executado na residência. Contudo, não significa necessariamente trabalhar todos os dias desde a residência. Por exemplo para a análise do Inquérito Europeu das Condições de Trabalho, o indicador utilizado para teletrabalho regular na residência significa  trabalhar a partir desta pelo menos vários dias por mês.’ Eurofound and the International Labour Office, 2017. Working anytime, anywhere: the effects on the world of work. Publications Office of the European Union, Luxembourg, p. 13.
  2. O conteúdo desta secção baseia-se na informação disponível nas seguintes publicações: Carsat Nord Picardie. Télétravail à domicile. Guide d’aide à l’évaluation des risques et à la recherche de mesures de prévention associées. A destination des entreprises et des salaries, 2012. pp. 7-8 (available at: https://www.carsat-nordpicardie.fr/images/stories/GRP/mp%20teletravail.pdf); Canadian Centre for Occupational Safety and Health. ‘Telework/Telecommuting’, 2020, (available at: https://www.ccohs.ca/oshanswers/hsprograms/telework.html); Eurofound and the International Labour Office, 2017. Working anytime, anywhere: the effects on the world of work. Publications Office of the European Union, Luxembourg.
  3. European Framework Agreement on Telework (disponível em: https://eur-lex.europa.eu/legal-content/EN/TXT/?uri=LEGISSUM%3Ac10131).
  4. Institution of Occupational Safety and Health, Home office, mobile office. Managing remote working, 2014, (available at: https://www.iosh.com/media/1507/iosh-home-office-mobile-office-full-report-2014.pdf).
  5. Metzger, J.L. and Cleach, O., 2004. Le télétravail des cadres: entre suractivité et apprentissage de nouvelles temporalités. Sociologie du travail 46, 3, 433-450
  6. Em Portugal a ACT

Contributors

Palmer, CABRAL CORREIA